22

Bem-vindo ao Pior Dia que já tive.

— Não fique amiga dele — aconselha Sadie. — Seria um mundo de dores.

— Não acredito que me mudei para cá por ele — digo eu. — O que eu estava pensando?

Como pode ser o fim? Era apenas o começo!

Quando Sadie foi ao meu apartamento, depois da aula, não consegui contar logo para ela o que tinha acontecido. Não consegui conversar com ela o dia todo. Nem com ela nem com ninguém. Parecia que ia chorar a cada dois segundos. Apesar de tentar desesperadamente manter a calma, tive de correr para o banheiro duas vezes, pois as lágrimas, de repente, começavam a escorrer pelo meu rosto. Não assisti às duas últimas aulas e vim para casa cedo. De jeito nenhum ia me sentar perto de Scott um dia depois de ele ter partido meu coração.

Nada vai ficar bem. Nada nunca está bem.

Sadie se afunda um pouco mais no almofadão, calada pela primeira vez desde que pedi para ela vir aqui em casa. Este dia não tem como ficar pior. Está frio e triste lá fora. Uma combinação deprimente de chuva, chuva gelada e neve típica do inverno intermitentes. Ah, e Scott não quer mais ser meu namorado, a menos que deixemos as coisas assim, sem compromisso!

Enxugo meus olhos com um lenço de papel molhado.

— Ele não era o garoto certo para você — diz Sadie. — O garoto certo nunca teria feito isso.

— Mas eu realmente acreditava que era.

— Os relacionamentos devem progredir naturalmente. As duas pessoas têm de querer isso. Se há resistência, tem um problema.

— Ah, tem um problema!

— Não tem mais. Agora você pode encontrar um garoto que faça qualquer coisa para estar com você.

— Não quero estar com qualquer outra pessoa.

— Não, sei que agora você não quer, mas um dia vai querer. E, quando estiver pronta, saberá o que procurar.

Puxo um lenço de papel novo da caixa. Muito legal Sadie tentar fazer com que eu me sinta melhor. Estar com uma pessoa nova é a última coisa que desejo pensar, mas sei que tudo que ela está dizendo está certo.

— Bem... Como John está indo na monitoria? Você está vendo alguma melhora?

— Um pouco.

As coisas com John não são mais exatamente do mesmo jeito. Quero dizer, nós ainda falamos sobre as mesmas coisas e ele ainda brinca comigo, mas não vamos ao High Line há uma eternidade. Está frio demais para ficar lá fora por mais que alguns minutos. Parece que ficar trancado na escola também trancou uma parte dele e John se afastou de mim.

— Como se eu conseguisse pensar em qualquer outra coisa neste momento, a não ser em Scott! — digo eu.

— Pelo menos você tem autoconfiança com relação aos garotos — observa Sadie. — Pelo menos você se esforça.

— É. Olha como deu certo!

— Mas olha tudo o que você fez. Vocês formavam um casal muito legal. Você fez acontecer!

Sadie pega sua enorme bolsa e a vasculha até encontrar um caderno. Ela o abre de repente. Vasculha mais um pouco e, finalmente, saca a caneta roxa brilhante, sua marca registrada. Depois, começa a rabiscar freneticamente.

— O que você está...

— Psiu!

Sadie continua rabiscando, com um dedo levantado para me fazer esperar. Alguns minutos mais tarde, ela arranca a página do caderno.

— Você consegue fazer uma dobradura de qualquer animal com isso?

— Praticamente qualquer um.

— Você consegue fazer um lagarto?

— Provavelmente. Posso ler primeiro?

— Não.

— Ou saber para quem é?

— Depois de terminar, você vai saber.

Faço o possível para dobrar o bilhete de Sadie em um lagarto. A cauda sai um pouco amassada.

— Bárbaro! — declara Sadie. — Vamos.

Caminhar por aí nessa mistura gélida e nojenta é a última coisa que quero fazer, mas Sadie insiste. Coloco as botas e tudo mais, a contragosto. Meu gorro ainda está molhado.

Enquanto vamos a algum lugar que ainda não sei qual é, ela diz:

— Então, estou pensando no seguinte: autoconfiança com relação aos garotos só pode ser adquirida através de sessões de treinos intensos. Você tem essa autoconfiança há um bom tempo. E mudar para cá não foi difícil para você, foi mais fácil, pois estava acostumada com os garotos tratando você de uma determinada maneira.

— Eles não...

Sadie me dá a mão.

— Você mudou sua vida inteira para ficar com Scott. O mínimo que eu podia fazer seria tentar ficar com Carlos.

— Finalmente!

Olho ao redor, procurando por Scott. Estou paranoica, achando que vou encontrá-lo.

— Ele está trabalhando hoje, então...

— O que você escreveu no bilhete?

— Optei pela estratégia do “menos é mais”. Basicamente, só tem meu número.

— Você sabe que você reina?

— Vou reinar quando ele me ligar. Até então, sou apenas uma fraca.

Espero do lado de fora do Rite Aid. É um sentimento esquisito estar feliz com a situação da sua amiga com o garoto e, ao mesmo tempo, deprimida com a própria situação.

Alguns minutos depois, Sadie sai. Ela não está feliz do jeito que eu esperava. Parece mais arrasada e ainda está com o bilhete.

— O que aconteceu? — pergunto.

— Não consegui entregar para ele.

— Ah! Bem, voltaremos outro dia. Você pode tentar de novo.

— Não. Não consegui entregar porque ele não trabalha mais aqui.

— Por que não?

— Não sei. O gerente só disse que Carlos pediu demissão há duas semanas. E não sabe para onde foi.

— Mas nós ainda podemos encontrá-lo. Você sabe o sobrenome dele?

— Não.

— Podemos perguntar ao gerente.

— Para que, assim, eu fique conhecida como a perdedora que caça aleatoriamente os caixas do Rite Aid? Acho que não.

— Mas...

— Sabe de que precisamos?

— De quê?

Cupcakes.

Então vamos ao Crumbs. Às vezes, em meio a todo o drama com garotos, só se precisa de um cupcake.

Uma coisa que adoro em Nova York é a rapidez com que a vida pode mudar. Considere este exato momento, por exemplo. De repente, estou a caminho da NYU[13]. Enquanto eu estava aguardando que Sadie escolhesse seu cupcake (ela escolheu o Good Guy), fiquei lendo o enorme quadro de avisos do Crumbs, em que são afixados panfletos sobre eventos locais e coisas do gênero. Havia um panfleto que divulgava a apresentação de um projeto sobre planejamento urbano na NYU, o que me salvou; do contrário, eu teria ido para casa e chorado por Scott a noite toda.

Quando estava fazendo pesquisa para aquele projeto de carreira para a Caixa, fiquei sabendo sobre planejamento urbano. É exatamente a área que eu imaginava estudar, só não sabia que se chamava planejamento urbano. Planejadores urbanos criam espaços verdes, como o High Line, desenvolvem maneiras de fazer com que as estruturas embutidas sejam mais atraentes aos moradores da cidade ou criam modos de incorporar mais luz natural e energia verde a prédios reformados. Se decidir me tornar uma planejadora urbana, posso me formar em Estudos Ambientais ou Sociologia e depois fazer mestrado em planejamento urbano. Então, quando vi o panfleto, sabia que eu tinha de ir.

Vi folhetos de faculdades que destacavam, com fotos, os campi espaçosos, com gramados e prédios enormes, parecendo muito acadêmicos, espalhados pela área. NYU não é assim. Não há muito espaço na cidade para um campus de verdade. Embora sejam basicamente alguns prédios amontoados em poucas quadras, ainda assim consigo sentir a energia da vida na universidade. Alunos andam apressados em todas as direções, alguns mal-arrumados, vestindo volumosas blusas de moletom e cachecóis espessos, outros protegidos por casacos pesados. Imagino uma garota sozinha no quarto, no alojamento da universidade, jogando nos ombros uma blusa de moletom e correndo para a aula no último minuto, toda empolgada com o primeiro encontro que acontecerá mais tarde com aquele garoto bonito do curso de Economia. Todos passam correndo por mim, enquanto tento encontrar o prédio certo. É um alívio quando, finalmente, o encontro, porque estou morrendo de frio.

Logo que chego à sala de reuniões, sinto uma inspiração repentina. Pela primeira vez, consigo me ver em um lugar assim, trabalhando para construir uma vida que não só me deixará feliz, como também fará outras pessoas felizes.

Nunca estive em uma apresentação de um projeto de um aluno de graduação, nem em nenhum outro evento em faculdade. Está muito mais cheio do que eu esperava. E parece de alto nível. Embora este prédio seja muito velho, a sala de reuniões está toda reformada, com um brilhante piso de madeira de lei e imensas janelas novas. É possível ver, através delas, o Washington Square Park, com seus arcos iluminados. Tem até um lugar para deixar o casaco, por onde quase passo direto, se uma garota não me chamasse.

— Você gostaria de guardar o casaco?

Apenas sorrio e tiro o meu casaco, tentando não parecer tão intimidada quanto estou me sentindo.

Atrás de fileiras de mesas compridas, há alunos em pé, e a sala está repleta de pessoas ziguezagueando em volta das fileiras. Pessoas que são daqui. Estou tão deslocada que nem sei para onde devo ir.

Outras parecem ir diretamente até os apresentadores, perguntando sobre seus projetos. Na área de cada estudante há um quadro com um grande cartaz, dividido em três seções, com a descrição do projeto de cada um. Em alguns deles, laptops mostram vídeos. Estão expostos também diversos materiais, como amostras de vidro, modelos de prédios e até uma turbina de vento.

Paro para ler um cartaz sobre ambiente de construção. Tem uma sinopse de um estudo sobre como mais investimentos pessoais em espaços residenciais urbanos diminuem os níveis de pobreza e, depois, um projeto sobre Million Trees NYC: a iniciativa de plantar um milhão de novas árvores por toda a cidade. A ideia é incentivar a revitalização do bairro, ajudar a reduzir poluentes e introduzir um fator de resfriamento no efeito de aquecimento urbano da ilha. Esses projetos são incríveis. Existem tantas formas possíveis para eu compartilhar minha paixão por esta cidade ao me tornar uma planejadora urbana! Quase consigo sentir as sinapses incendiando meu cérebro, processando ideias.

Uma garota tem uma foto enorme do High Line em seu cartaz. Vou até lá.

— O High Line é o máximo — digo eu.

— Eu sei. Não é fenomenal?

— Muito mais que fenomenal. Sobre o que é seu projeto?

Design de prédios verdes. Estou interessada em quanto os espaços verdes e a arquitetura verde podem melhorar o bem-estar dos residentes urbanos.

— É exatamente isso que me interessa!

— Você gostaria de ouvir sobre o que estou fazendo?

Faço que sim com a cabeça, entusiasmadamente. Enquanto ela explica as partes do projeto, eu me sinto feliz. Quanto mais ela explica, mais intensa se torna esta tranquila sensação de clareza.

De repente, “O Saber” entra. E sei, sem sombra de dúvida, que isso é o que eu tenho de fazer.