24

Depois da briga com papai, tive de sair de lá. Joguei rapidamente uma muda de roupa e mais algumas coisas na mochila. Não havia condições de voltar hoje à noite ou antes da aula de amanhã. Então liguei para Sadie. A mãe dela me disse que ela não estava em casa e eu decidi dar uma volta até que ela chegasse. Papai nem tentou me segurar quando saí.

Quero fugir noite adentro e nunca mais voltar. Pegar um trem para qualquer lugar. Encontrar uma vida melhor.

Estou ardendo em fúria. Conseguiria voltar para New Jersey até a pé. Poderia caminhar por aí a noite toda. Mal consigo sentir o frio que está fazendo com este fogo ardendo dentro de mim. Caminho pesadamente de calçada em calçada, sem olhar para os lados, como geralmente faço. Não levanto os olhos. Quem levanta os olhos são as pessoas que ainda têm esperança.

Quando caminho à noite, geralmente fico envolvida pelas luzes da cidade, pela energia do burburinho e pela animação de tudo ao meu redor, a repetida conscientização de que sou parte de tudo isso. Mas, nesta noite, olhando para baixo, para as calçadas, percebo como estão sujas e como os sacos de lixo de todo mundo estão empilhados no meio-fio em vez de estarem dentro de latas de lixo. Um rato enorme está vasculhando uma das pilhas de lixo como se fosse o dono do lugar. Não que eu não soubesse que existissem partes sujas na cidade. Eu só não tinha reparado nelas antes.

Passo por um sem-teto vasculhando uma lata de lixo na esquina. De repente, estar aqui não é mais tão empolgante. Este lugar é deprimente. As pessoas dormem nas ruas porque não têm para onde ir. É como se vivêssemos em um mundo desumano, onde ninguém se importa com ninguém. As pessoas arrombam apartamentos ou assaltam as pessoas na rua. As garotas são estupradas ou até mortas. Qualquer coisa poderia acontecer comigo aqui fora.

O rapaz sem-teto olha para mim. Somos os únicos por ali. Esta é uma das ruas maravilhosas e tranquilas que adoro, mas agora as coisas estão diferentes. Não é nada agradável ser observada atentamente por um esboço de um cara vasculhando o lixo.

Está na hora de ir.

Ligo para Sadie em seu celular, mas cai direto na caixa postal. Sua mãe disse que ela estava em um evento sobre atos aleatórios de gentileza e talvez não voltasse cedo para casa. Não posso esperar tanto tempo. Então, tomo uma decisão precipitada com relação aonde ir. Pode ser que seja a pior decisão que já tomei, mas sei que é um lugar seguro.

O High Line fica espetacular à noite. As árvores ficam todas iluminadas. Tudo parece sempre tão tranquilo aqui! Não importa o quanto a vida fique horrível, você pode contar com isso sempre.

A mãe de John atende a porta. Eu a encontrei uma vez quando estávamos fazendo monitoria aqui. Uma chuvarada começou de repente e nós corremos até o apartamento de John. Era tão reconfortante ali dentro! Hailey, irmã de John, imediatamente me fez um milhão de perguntas, mesmo tendo acabado de me conhecer. Nós todos comemos bolachas com lascas de chocolate quentinhas e ficamos olhando a chuva.

— Oi, senhora Dalton! — cumprimento. — John está?

— Deve estar de volta em um minuto. Ele foi até o mercado comprar leite. — A senhora Dalton dá passagem. — Entre, entre, saia do frio!

— Obrigada!

Estou aliviada de estar na sala de estar quentinha deles. Sinto novamente aquela sensação reconfortante, como na última vez em que estive aqui.

Hailey sai do quarto para ver quem é.

— Ei, Brooke! — diz ela. — Não vejo você há uma eternidade. O que ganhou de Natal? Ganhei esta pulseira bárbara, que eu queria, dois jogos Cranium[14], o Wow e o Hullabaloo, e este conjunto de ferramentas para arte igual ao que os verdadeiros artistas usam. Olhe nossa árvore! Quer ver os enfeites que eu fiz?

— OK, por que não deixamos Brooke tirar o casaco? — a senhora Dalton pergunta. — Você aceita um chocolate quente?

— Seria perfeito! — respondo.

— Hailey, por favor, coloque mais uma caneca na mesa para Brooke.

Hailey sai correndo até a cozinha.

— Desculpe, ela é um pouco hiperativa. O pai de Hailey enviou uma lata cheia de maple sugar. Eu estava racionando, mas ela encontrou meu esconderijo cedo demais.

— Não tem problema. Eu também fico hiperativa às vezes.

A senhora Dalton ri.

— Vou pendurar seu casaco. Quer colocar o cachecol junto?

— Obrigada!

— Logo que John voltar com o leite, servirei o chocolate quente. Hailey não vai se importar de não tomar. Expliquei a ela que já atingiu o limite de açúcar da semana. — A senhora Dalton pega meu casaco. Então, continua: — Quero agradecê-la por tudo que fez pelo John. Fez muita diferença. Ele parece entender as coisas de um jeito novo, que está dando certo para ele.

— Isso é ótimo! Estou contente por poder ajudar.

— Com certeza você está ajudando. O que quer que esteja fazendo, por favor, continue com o bom trabalho!

A senhora Dalton é uma dessas mães muito bem informadas. John me falou sobre ela. Ela é psicóloga infantil e tem várias ligações dentro do sistema escolar. De certa forma, John é sortudo, porque sua mãe tem dinheiro e conhece as pessoas certas, e ele recebe os serviços que precisa. Ele tem, por exemplo, um monitor particular para reforçar o ensino da escola. Se a senhora Dalton não fosse tão dedicada ao sucesso de John, provavelmente ele não seria tão incrível.

Hailey corre de volta para a sala de estar. Na verdade, acho que é chamada de “sala ótima”. É apenas um espaço grande, com enormes janelas ao longo da parede, com vista para o High Line.

— Venha ver meus enfeites! — grita Hailey, puxando meu braço.

O primeiro enfeite que chama a minha atenção é uma pomba clara e delicada, com penas brancas e purpurina.

— Adoro esta! — digo.

— Essa não fui eu que fiz. Eu fiz esta aqui. — Hailey me mostra uma estrela. — E esta — um anjo — e... espere, onde foi parar? Ah, aqui está: esta também.

— São bonitas!

— Como você. Você sabia que John gosta de você?

— O quê?

— Cheguei! — grita John, fechando a porta atrás dele.

Ele já tirou uma manga do casaco e está desenrolando o cachecol quando nos vê perto da árvore.

— Desculpe por não ter ligado! — digo. — Realmente precisava vir à sua casa.

John desenrola o resto do cachecol. Ele está vestindo uma blusa térmica com uma camiseta por cima. Sua camiseta tem o contorno de uma caixa-d’água elevada e nela está escrito: OLHE PARA CIMA.

— Tudo bem eu estar aqui? — pergunto.

— Tudo bem. Só preciso entregar isto para minha mãe.

Observamos John levar a sacola do mercado para a cozinha. Então cochicho para Hailey:

— Ele gosta de mim?

— Ele gosta muito de você — cochicha ela, brava. — Só fala em você, o tempo todo.

— Desde quando?

— Desde que vocês se conheceram.

— Por que ele não...?

— E aí? — diz John.

Demoro um pouco para juntar meus pensamentos. Será que Hailey está certa? John gosta de mim? Nunca, de jeito nenhum, vi nosso relacionamento dessa forma. Na verdade, me sentia feliz de ser amiga de um garoto que não tivesse segundas intenções. Na minha cidade, era fácil perceber se os garotos gostavam de mim. Alguns faziam jogo, mas sempre eram transparentes.

— Posso conversar com você? — pergunto.

— Vamos ao meu quarto.

Hailey é tomada por um forte ataque de riso.

— Cuidado para não engolir uma amígdala ou alguma outra coisa — aconselha John.

— Eca! Por que você tem que ser tão nojento?

— Sou um garoto. Somos todos nojentos.

Da última vez que estive aqui, não vi direito o quarto do John. Ele tem um desses quartos que você sabe exatamente a quem pertence. Panfletos das noites dos conhecimentos gerais no The Situation Room estão colados acima da sua cômoda, onde estão dois cubos mágicos. A porta do armário está escancarada e há roupas espalhadas por toda parte. Reconheço suas várias blusas com capuz, algumas penduradas, outras no chão. Tem um pôster preto de um grampeador vermelho-queimado, com fumaça saindo dele. Na parte de baixo, está escrito em amarelo: EU ACHO QUE VOCÊ PEGOU MEU GRAMPEADOR.

O que mais me chama a atenção é uma foto enorme de Nova York à noite, tirada de cima do nosso bairro. Ela mostra ruas douradas brilhantes, que levam ao centro, água roxa à meia-noite rodeando os limites de Manhattan e as luzes de New Jersey brilhando ao longe. Orgulhosamente, as Torres Gêmeas observam tudo de perto.

— Adoro este pôster! — digo.

— Obrigado! Eu sabia que ia gostar.

— Tive uma briga feia com meu pai. Não posso voltar lá agora. Eu sei que você está bravo comigo, mas será que poderia ficar aqui hoje à noite?

— Você sabe que pode.

— Que bom, obrigada!

— É parte do problema. Você sabe que não posso dizer “não”
a você.

— Humm... não tinha certeza se não haveria problema. Eu posso ir se...

— Mas sabe o que mais me irrita? Nem é em relação a mim. É como você consegue se desrespeitar e nem se importar! Você tem este dom incrível e o joga fora. Gostaria de ter ao menos um pouquinho do seu talento. As coisas que levo horas para entender são tão fáceis para você! Você não percebe o quanto é sortuda? Você poderia ser muito mais do que se permite ser. Você é muito mais. Por que simplesmente não se permite ser quem você é de verdade?

Estou totalmente atônita. Não tenho a menor ideia do que responder. Hailey deve estar certa sobre John gostar de mim. Por que mais ele se importaria tanto?

— Eu não sabia que era por isso que você estava tão bravo — digo. — Por que não disse nada antes?

— Não estou bravo. Estou decepcionado. É diferente.

— Posso...

— Não, espere. Eu estou bravo. Estou bravo porque, desde o primeiro segundo que a vi, sabia que queria ficar com você, mas você não se sentia da mesma forma. Eu realmente sentia que você tinha vindo para cá por mim, mas, na verdade, veio aqui por causa de Scott. Então, de repente, é tudo por causa dele e fico me perguntando: “De onde veio este cara?”. Não acreditei quando você o chamou para ir ao Strawberry Fields conosco!

— Espere, Sadie e eu íamos sozinhas, mas aí você disse que queria ir. Ou seja, originalmente não éramos nós três.

— Cara, fui eu que pedi para Sadie organizar tudo. Pedi a ela que a chamasse e, depois disso, aparece você se pendurando no Scott bem na minha frente. Não consegui suportar aquilo. Até desci do metrô uma estação antes. E aquela vez, no telhado, quando tentei segurar sua mão? Você nem percebeu! Aquilo... eu realmente achei que estávamos conectados. Aí descobri que você gostava de Scott o tempo todo.

— Uau!

— Não diga!

— Isso é...

Como pude ser tão ignorante? John é o primeiro garoto que interpretei mal. Nem tinha certeza se ele era heterossexual quando nos encontramos pela primeira vez na monitoria. Ele nunca falou sobre gostar de alguém. E nunca perguntei porque presumi que isso era uma parte da sua vida que queria guardar para si. Não esperava isso de jeito nenhum!

John tosse.

— Acho que eu gostaria de retirar tudo que acabei de dizer.

— Tudo bem. Estou contente que você tenha dito.

— É mesmo? As coisas não vão ficar esquisitas agora?

— Acho que não.

De maneira alguma quero que John saia da minha vida só porque ele gosta de mim. Desde que não seja esquisito para ele, para mim está tudo bem. Na verdade, sou extremamente grata que John esteja em minha vida. Ele é um amigo tão legal! É claro que ele deseja que eu seja a melhor versão de mim mesma. John me ajudou a perceber meu potencial de uma forma que minha mãe nunca conseguiu e que meu pai, que nunca está por perto, poderia incentivar. Enquanto mamãe me derruba e fica dizendo que sou uma decepção, John me pega no colo. Ele me ajudou a descobrir o que eu quero ser e me motiva a dar importância. Está me ajudando muito mais do que eu o ajudo. Ele sempre faz com que me sinta melhor, mesmo que estejamos apenas descobrindo novas caixas-d’água elevadas ou andando por aí, olhando para cima.

Então, é incrível que John tenha sido capaz de fazer todas essas coisas sem me dizer como ele se sentia! Deve ter sido muito difícil para ele priorizar minhas necessidades. E isso o torna ainda mais incrível do que eu imaginava.

— É engraçado você ter vestido esta camiseta hoje à noite — digo. É como se John, de alguma forma, soubesse que eu viria aqui. Não consigo me lembrar como estava vestido na monitoria, mas não era com esta camiseta. Desta, teria me lembrado. — É nova, né?

— É. Eu a customizei naquele lugar da Rua MacDougal.

— Ficarmos amigos vai ser esquisito para você?

— Provavelmente, mas prefiro me acostumar a isso a perder você. Quer saber qual foi a minha resolução de equinócio do outono?

— OK.

— Encontrar um jeito de ficarmos mais próximos para que você percebesse que pertencíamos um ao outro.

Cale... a boca! Com certeza, vou pôr isso no arquivo “É Claro”: é claro que é a mesma resolução que fiz sobre Scott. Eu me lembro daquele dia no High Line, ao ver tudo aquilo pela primeira vez, atônita não só com a beleza do lugar, como também com John, tão conectado a essa cidade quanto eu. Lembro-me do pôr do sol a que assistimos e de como me senti relaxada na sua companhia.

John não poderia estar menos relaxado neste momento. Ele está um caco. Fica andando de um lado para outro no quarto, pegando coisas ao acaso e jogando de volta.

Estou me sentindo horrível.

— Lamento muito por tudo isso! — digo, me desculpando.

— Não se lamente. Ou você sente alguma coisa, ou não.

— Eu adoro sua companhia! Não quero que isso mude.

— Nenhuma mudança é necessária. Com o tempo, a vida vai recomeçar, como sempre.

— Legal.

— Desculpe por todas aquelas bobagens que disse sobre como você está se desrespeitando. Você sabe como eu fico quando estou discutindo.

— Sabe de uma coisa? Você estava certo. Eu precisava ouvir isso.

— Fico feliz por ter ajudado...

John é realmente incrível. Se eu fosse ele, não conseguiria nem olhar para mim, muito menos continuar sendo meu amigo. Mas ainda nos sentimos como a Brooke e o John, como sempre fomos.

Ao lado de um dos cubos mágicos de John, há um unicórnio de origami. Parece familiar, só que está pintado de roxo e tem lantejoulas nos olhos.

— Esse é...? — chego mais perto, para examinar o unicórnio. Foi feito com um papel de cardápio de entrega. — Não fui eu que fiz este?

— Foi.

— Não me lembro de ter dado a você.

— Você não deu. Peguei emprestado.

— Você pegou emprestado?

— Mais precisamente, roubei. Semântica.

— Por quê?

— Você está brava?

— Não, tudo bem. Você sabe que faço um monte destes. Mas por que você o queria?

— Não sei. Caiu da sua bolsa, e Hailey gosta de unicórnios, então eu trouxe para ela. Foi ela quem o enfeitou, não eu.

— Presumi.

— Porque eu usaria olhos de plástico saltados em vez de lantejoulas.

— Está bonitinho.

Hailey colou uma fita de cetim na cauda. Ela também colocou purpurina azul no chifre.

— Ah, não está apenas bonitinho. Está roxo, brilhante e é um unicórnio. O que mais você quer?

Quero perguntar por que o unicórnio não está no quarto de Hailey, mas John já suportou o bastante para uma noite.

Quando voltamos para a “sala ótima”, Hailey não está lá. Está trancada em seu quarto. Com todo o espaço só para nós, percebo como é vasto. John tem tanta sorte de morar aqui! E é o melhor tipo de sortudo, ele valoriza o que tem.

Olho através das grandes janelas. Rodeada pelas luzes da cidade e pelo céu roxo, a enormidade de estar aqui me envolve novamente. Não importa se não consigo descobrir de qual lado eu venho. A única coisa que importa é que consegui chegar ao outro lado.

O objetivo desta jornada não foi ficar com determinado garoto. Foi descobrir quem eu sou, perceber o que eu poderia ser. Mudar para Nova York foi mais importante que seguir Scott. Estar com ele foi muito importante, mas ele era apenas um catalisador. Ele era uma maneira de manter meu sonho vivo. Eu o criei como alguém que seria a resposta a tudo que eu queria.

Ele não é esse garoto. Nenhum garoto é. Nenhuma pessoa pode ser tudo o que você espera que ela seja.

A única pessoa com quem posso contar sou eu mesma. Criar a vida que quero só depende de mim. Não posso culpar meus pais, Scott ou qualquer outra pessoa pelo jeito que as coisas são.

Agora que sei para onde esta vida está indo, é hora de decidir como quero chegar lá.