— Sua nota no SAT[15] de... vamos ver... novembro foi quase perfeita. Isso significa que as faculdades serão mais condescendentes com suas notas — a consultora de faculdade explica.
Havia apenas uma consultora de faculdade para mais ou menos três mil alunos na minha antiga escola, por isso, depois que fiz os SATs pela primeira vez, em maio, ela nem me ligou. Mas todos os alunos do terceiro ano foram obrigados a fazer os SATs novamente no último outono e, agora, as coisas são diferentes. Esta consultora é muito boa. Está me ajudando a preparar uma lista de faculdades nas quais eu possa realmente entrar. Quando me inscrevi para uma consulta com ela, não sabia que ficaria tão nervosa. Estou tão nervosa que até esqueci seu nome.
— Você tem muitas opções — diz ela. — Você consideraria a possibilidade de ir para outro estado?
— Acho que não. Gosto muito daqui.
— Bem, há muitas faculdades na cidade que poderiam dar certo para você. Você tem uma média geral baixa, C, que é próxima às notas da maioria dos formandos. E sua melhora recente é uma coisa boa. O único problema é que o prazo de entrega da maioria dos requerimentos já acabou. Porém, você já se candidatou a algumas e podemos encontrar outras com prazos mais longos. Ainda podemos recorrer a um curso técnico, se bem que tenho certeza de que será aceita em algum lugar decente. E se você mantiver a pontuação de pelo menos 3,8 durante os dois primeiros anos, poderá se transferir para uma faculdade muito melhor no terceiro ano.
Não acredito que isso possa dar certo. As faculdades para as quais já me candidatei são medianas ou abaixo da média, e aceitam alunos com GPAs[16] mais baixos, como o meu. A consultora acha que tenho uma boa chance de entrar em qualquer uma delas. E existem mais faculdades aqui em Nova York para as quais ainda tenho tempo de me candidatar, algumas até mesmo na parte baixa de Manhattan, onde quero morar. Isto já é informação suficiente. Felizmente, tenho uma amiga com quem posso dividir tudo isso, mas, antes de discutirmos sobre faculdade, tenho de lhe contar sobre John.
— Não acredito que ele goste de mim — digo.
Acabei de contar a Sadie tudo o que aconteceu no apartamento de John ontem à noite. Ela queria me encontrar no Crumbs, mas insisti em nos encontrarmos no Joe. É reconfortante aqui. Preciso disso.
Sadie não parece surpresa com o fato de John gostar de mim.
— Não acredito que você não sabia — diz ela.
— Como você não me contou?
— Como você não sabia?
— Achei que estávamos apenas curtindo.
— Ah, por favor! Dava para perceber desde o dia que você começou a monitoria. Ele mal podia esperar para falar sobre você depois.
— Você deveria ter me contado.
— John me fez jurar sigilo.
— Muito obrigada!
— Ele tem prioridade na amizade. De qualquer forma, o que teria feito? Você não ia, de repente, começar a gostar de alguém que não fosse Scott.
Acho que foi isso que aconteceu com o Garoto do Café Expresso. Que está aqui, claro. Estava tão entretida contando a Sadie sobre ontem à noite que nem notei quando ele entrou.
— Não olhe — sussurro —, mas ele está aqui.
— Quem, John?
— Não, o Garoto do Café Expresso.
— Isso eu preciso ver — Sadie diz, virando-se.
— Eu disse para não olhar!
— É aquele lá? Encostado na parede?
— Uhum.
— Por que você não me disse que ele era assim?
— Assim como?
— Assim, bonitinho!
— Não é.
— É sim. Você deve sofrer de deficiência-Scott visual.
Dou uma espiada no Garoto do Café Expresso. Logicamente ele percebeu nossa vibração frenética e está ocupado tentando parecer que não está vendo que o observamos. Sadie está certa, ele é bonitinho. Mas a ideia de pensar que algum outro garoto seja bonitinho, fora Scott, me dá enjoo.
— Ele até come cupcake — acrescenta Sadie.
Eles têm cupcakes especiais feitos por uma das celebridades que mora por perto. Nunca sabemos quando vão estar aqui. Quando estão, Sadie sempre pede um, com seu café expresso com caramelo. Não sei como ela tolera tanto excesso de açúcar sem se tornar uma bola.
— Muitas pessoas comem cupcakes — digo.
— Não. Só as pessoas que são muito legais.
— Você quer que eu a apresente?
— Eu me apresentaria, se ele não estivesse apaixonado por você. Estou fazendo deste jeito agora: se houver alguma coisa que eu queira dizer, eu digo. Não espero mais por algum momento místico certo, que nunca chega, para depois perder minha chance.
— Podemos encontrar Carlos. Podemos perguntar ao gerente.
— Tudo bem. É muito mais divertido ficar se roendo de arrependimento.
— Não entendo você. Por que simplesmente não pergunta qual é o sobrenome dele? Tenho certeza que sabem por que ele saiu. Talvez tenha sido transferido para outra Rite Aid, a algumas quadras de distância. Ele poderia estar a um pulo daqui!
Sadie bebe o café aos goles.
— Se tivéssemos nascido um para o outro, ele estaria lá quando fui levar o bilhete.
— Sério?
— Claro que sim. Não quero seguir o rastro dele. Recuso-me a ser tão desesperada assim. De qualquer forma, esta é Nova York! Há muitos garotos aqui.
Eu ainda acho que Sadie deveria tentar encontrá-lo, mas não vou pressionar. Passando para o próximo ponto, pego meu caderno. Sadie disse que me ajudaria a entender minha vida. Ela é muito boa nesse tipo de coisa. É irônico como, no começo, eu a achava tão irritante e, agora, ela é praticamente minha melhor amiga. Deixei April de lado. Talvez ela me queira de volta em sua vida um dia. Se não quiser, não há nada que eu possa fazer a respeito. Só posso esperar que sejamos amigas novamente, embora as coisas nunca mais serão iguais entre nós.
Meu telefone toca. Não fico nem um pouco surpresa quando a tela mostra que papai está chamando. Deixo cair no correio de voz. Ele deixou um monte de mensagens ontem à noite enquanto eu estava na casa de John. Obviamente, ele estava preocupado, para variar, por isso enviei uma mensagem de texto dizendo que eu estava bem e que dormiria na casa de um amigo. Ainda não estou preparada para conversar com ele.
Abro o caderno na parte onde está toda a minha pesquisa. Há muita informação sobre planejamento urbano que encontrei on-line, movida pela adrenalina da minha noite na NYU. E, depois que a consultora de faculdade me ajudou, tive uma ideia muito melhor sobre onde encontrar respostas.
— Então, para ser uma planejadora urbana — começo —, precisarei de mestrado.
— E você tem de ser bacharel em que área?
— Pode ser em várias áreas diferentes, mas gosto mais dos estudos sobre meio ambiente. Depois, posso me concentrar em como o design dos prédios verdes ajudam a melhorar a saúde física e emocional das pessoas.
De repente, Sadie se levanta da cadeira para verificar alguma coisa lá fora.
— O que é que tem de errado?
— Nada — ela se senta novamente. — Só estava olhando para me certificar se o resto da realidade ainda estava lá.
— Por quê? Porque estou falando sobre faculdade? Todo mundo está.
— Não, todo mundo estava falando sobre faculdade quando os prazos para as inscrições estavam vencendo. Lembra? Naquela época, quando você desorganizadamente se candidatou a algumas faculdades aleatórias só porque estão aqui?
— Bem, desculpe-me por não querer sair de Nova York! Levei uma eternidade para chegar aqui. Sair seria burrice.
— Não estou dizendo que precise sair. Tem de haver um programa aqui que se encaixe com o que quer. Você já pesquisou quais faculdades têm admissões regulares? Ou prazos finais mais longos?
Virando a página triunfantemente, passo o caderno para Sadie.
— Está tudo aqui.
Eu gostaria muito de ter opções melhores, mas o importante
é que eu comece a usar a educação como um meio de chegar aonde quero.
Ela dá uma olhada em minha lista.
— Legal, mas precisa se apressar.
— Eu sei, vou enviar os requerimentos esta semana. E todas elas têm graduações que funcionam para mim, então...
Sadie sorri, radiante.
— Como estou orgulhosa!
— Pare.
— Não, estou falando sério, isto é... John sempre diz que você poderia estar fazendo muito mais com sua vida e eu devo concordar. Parece que você finalmente está entendendo isso.
O Garoto do Café Expresso está me dando olhadas furtivas. Pego um panfleto de propaganda de aulas de violão, que alguém deixou na mesa, e começo a fazer uma dobradura de borboleta.
— Não acho que você precise da minha ajuda — diz Sadie. — Parece que já tem tudo planejado.
— Não, eu preciso de você para uma coisa.
— O quê?
— Para me dizer que posso fazer isso. Estou atrasada demais?
— Absolutamente! Nunca é tarde demais para dar uma guinada na vida.
Realmente, espero que ela esteja certa.
Antes de Sadie ir embora, enfio um bilhete em sua bolsa. Escrevi um warm fuzzy para ela depois de acordar na casa de John, hoje de manhã, tomada por um senso de urgência. As pessoas que me apoiam precisam saber como são importantes para mim. Eu não queria que Sadie fosse embora agora, mas ela tem de se preparar para o evento de hoje à noite. Uma das faculdades para a qual se candidatou vai promover um dia de visitação. A filosofia deles parece ser a de que, se eles oferecerem lanches, é mais provável que as pessoas os escolham.
Sadie está sempre ocupada. Quando não está se matando pela escola, está dando aulas de monitoria, fazendo atos aleatórios de gentileza, lendo para crianças no hospital ou um monte de outras coisas. Não sei como ela faz tudo isso. Só de pensar em sua agenda lotada, já me sinto exausta. Ao mesmo tempo, isso me faz querer fazer mais. Há tantas possibilidades esperando para serem descobertas! Qualquer uma delas poderia moldar meu futuro.
Depois de pronta, apoio minha borboleta de origami no peitoril da janela. Adoro encontrar energia criativa em lugares inesperados. Como estes desenhos simples de figura humana que estão pintados nas esquinas de algumas ruas no meu bairro. Já vi vários, cada um de uma cor. Apesar de não saber o que representam, eles significam alguma coisa para alguém, e isso é impressionante. Eu gostaria de saber o que a próxima pessoa que sentar aqui vai pensar da minha borboleta. Será que alguém vai notar que ela está ali? Será que vai pegá-la, que vai querer saber quem a fez e por que foi deixada para trás? Se a pessoa certa a encontrar, poderá ser considerado um ato aleatório de gentileza.
Quando saio, o Garoto do Café Expresso nem levanta os olhos de seu livro. Quando já estou no meio do quarteirão, ele vem correndo atrás de mim.
— Espere aí — diz ele. — Eu sou... eu estava no Joe.
— Eu sei.
Paramos de andar. Então, ficamos ali parados, olhando um para o outro.
— Você recebeu meu bilhete? — pergunta ele.
— Sim. Foi muito legal da sua parte. Desculpe não ter ligado!
— E por que não ligou?
— Sinceramente?
— Vá em frente.
— Eu estava interessada em outra pessoa e sabia que você não ia querer ouvir isso.
Ele faz que sim com a cabeça e fica triste.
— Pelo menos teria sido legal saber o que estava acontecendo com você. Levei uma eternidade para escrever aquele bilhete, o que eu sei que parece maluquice, já que era tão curto, mas demorei muito tempo para encontrar aquelas palavras.
— Ah, eu...
— E quando acabei de escrever, não tinha certeza se teria coragem de entregá-lo a você. Cada dia que você não ligava, a decepção aumentava um pouco mais. Eu precisava saber se eu tinha alguma chance e é por isso que, neste momento, tem um cara louco seguindo você na rua.
Que absurdo isso! Eu estava tão absorta em meu próprio drama que nem tomei conhecimento da outra pessoa que estava tendo um drama comigo. Nunca pensei que pudesse ser a questão mais importante na vida de outra pessoa dessa forma. O que é estranho, porque... olhe para esta coisa toda com Scott! Ele estava completamente alheio a quanto ele significava para mim. É inacreditável como você pode afetar outra pessoa tão profundamente e nunca ficar sabendo.
Eu não tinha ideia de quanta coragem o Garoto do Café Expresso precisou ter para me dar aquele bilhete.
— Você deve achar que sou totalmente maluco — diz ele.
— Não, não acho. É só que não posso entrar em outro relacionamento agora. Meu namorado e eu terminamos há dois dias.
— Legal, eu entendo. Não deveria ter incomodado você. Timing é tudo, né?
Quando o Garoto do Café Expresso volta para dentro, eu o observo pela janela, enquanto ele se senta à mesa. E é nesse momento que me dou conta de que não sei seu nome. Ele escreveu no bilhete, mas não me lembro. Nem perguntei.
Tomo a resolução de nunca mais deixar uma coisa dessas acontecer novamente. Mesmo que não esteja interessada em alguém que gosta de mim, o mínimo que posso fazer é perguntar o nome. Quero ligações mais profundas com as pessoas ao meu redor. Preciso estender mais a mão. Nem todas as pessoas viram as costas. Às vezes, ao estender a mão, a pessoa estará exatamente ali, esperando.
Remorso é uma coisa horrível. Detesto ter desperdiçado todos esses anos me rebelando contra um sistema que poderia ter usado a meu favor. Se minhas notas fossem o que deveriam ter sido, não estaria preocupada com faculdades neste momento. Eu poderia relaxar. Em vez disso, estou com medo de que, talvez, não consiga ingressar em lugar algum. Sei o que a consultora de faculdade me disse sobre a nota no SAT, mas duvido que eles se importem com o fato de as minhas notas terem melhorado no último período ou de que estou dando aulas de monitoria para os colegas. Os comitês de aceitação analisam todos os quatro anos de ensino médio, especialmente o penúltimo ano. Claro que é o período que eu estava com mais raiva. Não acredito que fui tão burra! Toda minha rebeldia não fez absolutamente nada por mim, nem por qualquer outra pessoa. Ter um objetivo tangível pelo qual me sinta apaixonada faz toda a diferença.
Então é isso. Está na hora de rever as prioridades: trabalhar direcionada à minha futura carreira, usar meus talentos para ajudar as pessoas, criar uma vida que signifique alguma coisa. “O Saber” me diz que estas coisas são possíveis.
Pego a minha caixa de desejos. Examinando minuciosamente os bilhetes que escrevi, não acredito quantos deles têm a ver com Scott. E as coisas que eu queria só para mim? Não queria nada que não estivesse relacionado com algum garoto?
Parece que não. Tiro todos os bilhetes que escrevi sobre Scott, depois rasgo cada um deles em pedaços minúsculos.
Hoje à noite, meu objetivo é fazer novos pedidos. A caminho de casa, passei na Kate’s Paperie e comprei uns papéis de carta maravilhosos. É um pacote de papéis com vários motivos diferentes, feitos à mão. Cada papel é único, uns têm desenhos incríveis, outros têm flores prensadas ou bordas puídas. É exatamente o tipo de papel especial que quero usar para a minha caixa de desejos reformulada.
Também comprei um pacote de canetas Gelly Roll Lightning. Tiro a tampa da caneta verde e começo a escrever sobre meu futuro. Escrevo sobre como quero que o próximo ano seja, como quero que o resto deste ano seja, começando por hoje, sobre o tipo de garoto com quem quero estar (se bem que eu acho que não vou querer ficar com ninguém por um bom tempo). De qualquer forma, estar com um garoto não é o mais importante. O mais importante é que estou descobrindo quem eu sou. Quando conseguir me aceitar, em vez de ficar lutando contra isso, então estarei pronta para um relacionamento de verdade.
Depois de arrumar cuidadosamente todos os novos bilhetes na caixa de desejos, me concentro na própria caixa. Decorar a parte externa da caixa de desejos é crucial. A maioria das imagens que colei nela é de Scott e de Nova York. Mantenho as de Nova York e tiro as de Scott. Rasgo todas e as jogo fora. Então, procuro na internet imagens de espaços verdes, do High Line, das luzes da cidade, de contornos de edifícios ou montanhas, de topos de edifícios, de caixas-d’água elevadas... tudo o que tem significado para mim. Meu coração dói enquanto faço isso, mas a distração o ajuda a doer um pouco menos.
Quando o telefone toca, checo a hora. Fico pasma: estou trabalhando na minha caixa de desejos há mais de três horas!
— Olá?
— Eu o encontrei — diz Sadie.
— Quem?
— Quem você acha? Carlos!
— Onde?
— Sabe aquele evento que eu fui?
— Sei.
— Ele estava lá.
— Cara!
— Eu sei. Pena que tenha ficado completamente atordoada com isso.
— Sem dúvida. Provavelmente ele já esteja apaixonado por você.
— Não depois do que eu fiz. Eu o vi parado perto da mesa de comes e bebes e... OK, a princípio, não conseguia acreditar que era ele mesmo. Então fui até ele e disse: “Carlos?”. E ele: “De onde conheço você?”. Aí eu disse que, às vezes, vou ao Rite Aid e ele falou: “Conheço você”. Então perguntei — eu não poderia estar mais envergonhada — perguntei se estava trabalhando no evento. Achei que ele estava com o serviço de buffet ou algo assim.
— Oooh...
— E ele respondeu: “Ah, não! Eu me candidatei a esta faculdade”. Você acredita? Pode ser que estudemos na mesma faculdade! Não que haja algum problema, mas eu poderia ter sido mais ofensiva?
— Você não sabia. Tenho certeza de que não significou nada.
— Ah, foi mal sim. Fiquei o tempo inteiro me desculpando pelo meu jeito bobo. Fiquei tão doida com isso que ele nem pediu meu telefone.
— Droga.
— A única coisa boa foi que eu pedi o dele. E ele me deu!
— Ótimo! Viu? Eu disse que ele não ia se importar. Quando você vai ligar?
— Quanto tempo devo esperar?
— Sem fazer jogo. Você deve ligar para ele quando quiser.
— Ah, então, tipo a cada segundo?
— Onde está a sua autoconfiança com relação aos garotos?
— Só porque consegui um grão de autoconfiança para pedir o telefone dele não significa que isso veio com manual. Essas coisas são delicadas. Se eu ligar para ele imediatamente, pode ser que o espante, mas se esperar muito tempo, ele poderia sair com outra pessoa. Então, qual é o tempo de espera perfeito?
— Você está perguntando à pessoa errada.
Evidentemente, não sei nada sobre garotos. Sou a última pessoa para quem alguém deveria pedir conselhos sobre eles.
Já conselhos sobre a vida... Pela primeira vez, acho que tenho alguns para oferecer.